A Teologia da Prosperidade e a Bíblia - Parte II

A partir de 1980, a Teologia da Prosperidade tem se disseminando no Brasil como gangrena pelo corpo de Cristo, de tal forma que é cada vez mais difícil encontrar uma igreja que esteja completamente livre dessa contaminação. Em suas pregações e ensinos, a Teologia da Prosperidade deixa de valorizar temas bíblicos tradicionais como a negação dos prazeres da carne e das coisas deste mundo, a perseverança dos justos no caminho estreito da salvação e, valoriza a fé em Deus como meio para obter felicidade, saúde física, riqueza e poder terrenos. Enaltece o bem-estar do cristão neste mundo alcançado por meio de meditações puramente religiosas. Defendem que no mundo, o verdadeiro cristão está predestinado à vitória em todas as esferas da vida, ensinam e praticam uma teologia comprometida com a ideologia da sociedade de consumo.


Para a Teologia da Prosperidade a pobreza significa falta de fé, o que desqualifica qualquer postulante pobre à salvação. Entendem que Jesus veio ao mundo pregar o Evangelho aos pobres justamente para que eles deixassem de ser pobres e aos doentes para curá-los. Entendem que a expiação de Cristo libertou os homens da escravidão do Diabo, das maldições da miséria e das enfermidades nesta vida, e da segunda morte no além. Desta forma, entendem que os homens, a partir da expiação do Cordeiro, estão destinados à prosperidade, à saúde, à vitória e à felicidade. E, para o homem desfrutar de todas estas bênçãos, basta o cristão ter fé incondicional em Deus, exigir seus direitos em alta voz e em nome de Jesus e ser obediente a Ele acima de tudo nos dízimos e nas ofertas.


Ensinam coisas fascinantes num primeiro momento, porém ao analisar as Escrituras Sagradas, percebe-se que em grande parte, trata de distorções da Palavra de Deus. Observe alguns exemplos: Usam Marcos 11.24 para afirmar que tudo o que o homem pede com fé em oração recebe de Deus, porém ignoram o texto de 1º João 5.14 que afirma que “...esta é a confiança que temos para com ele, que, se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.” João deixa muito claro de que Deus realmente dá o que se pede, desde que esteja de acordo com a sua vontade. Os defensores da Teologia da Prosperidade ou Confissão Positiva, dizem que sempre é vontade de Deus curar e dar riqueza, mas ninguém pode afirmar que conhece a vontade de Deus em todos os casos. Seus caminhos não são os nossos e Seus pensamentos também não são os nossos (Is 55.8). Paulo, em Romanos 11.33, lembra que os caminhos do Senhor são inescrutáveis e insondáveis.


Os “teólogos” da prosperidade usam a passagem de Isaías 53.4, citada em Mateus 8.17 e I Pedro 2.24, como prova de que Deus deve sempre curar, já que Cristo já levou nossas dores e enfermidades. Porém, esta interpretação de Isaias 53 pelos teólogos da prosperidade não se harmoniza com a realidade dos fatos, nem no que cremos. Para entender o texto de Isaias dentro do contexto de toda a Bíblia, entende-se que o homem foi expulso do Éden, e consequentemente ficou separado da árvore da vida (Gn 3.22-24), e apenas em Apocalipse 22.2, na Nova Jerusalém, é que o homem terá novamente acesso àquela árvore que é “para cura de todas as nações.” Vive-se hoje no tempo em que a terra produz “espinhos e ervas daninhas”, tempo em que é preciso suar para ter o alimento que se necessita, conforme Gênesis 3.17-19. O Novo Testamento menciona doenças que não foram curadas milagrosamente, como no exemplo de Timóteo (I Tm 5.23), o apóstolo Paulo (II Co 12.7-10) e, em nenhum dos casos foi por falta de fé.


Isaias 53.4 é citado em Mateus 8.17 para que os homens pudessem reconhecer e experimentar os efeitos da presença de Jesus fisicamente na terra, experimentar a realidade de que o Reino de Deus havia chegado (Mt 3.2), mas não ainda em sua plenitude, pois ainda se peca, adoece, sente-se dores e se morre etc. Mateus cita Isaias para que o ser humano entenda que a profecia de Isaias se cumpre em Jesus Cristo, algumas pessoas experimentaram curas de suas enfermidades físicas, mas o mais importante é que pagou o preço pelo pecado do ser humano e o libertou da única enfermidade que traz consequências para a eternidade, a morte eterna.Quando esteve corporalmente na terra Jesus não curou 100% dos enfermos, ou ressuscitou 100% dos mortos, isso só acontecerá em sua segunda vinda, oportunidade em que o Reino de Deus virá em sua plenitude. Quanto a I Pedro 2.24 basta um pouco de atenção ao contexto para constatar que o apóstolo está falando da cura do pecado e não de saúde física.


Os teólogos da prosperidade citam João 14.12 para dizer que o homem pode e deve fazer a mesma quantidade e os mesmos milagres que Jesus fez, pois Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre. Porém, Jesus não se refere necessariamente aos milagres, as obras a que se refere é fazer a vontade do Pai e proclamar o Reino de Deus. Existe uma coerência lógica na afirmação de Jesus, pois Ele anunciou a mensagem do Evangelho ao povo de Israel, mas a sua Igreja tem a missão de levar a mesma mensagem até os confins da terra. Os teólogos da prosperidade afirmam, citando João 10.10b, que a vida em abundancia que Jesus veio trazer, se constitui em uma vida de riqueza material e saúde física. Porém, ao ler Hebreus 11, percebe-se que os mártires, ao contrário da riqueza, receberam por sua fidelidade nesta vida o sacrifício de própria vida pelo Evangelho. Em Marcos 12.41-44, a viúva pobre que deu suas últimas moedas. O texto bíblico não relata que tenha ficado ou ficaria rica, o que relata e é destacado é sua fidelidade e generosidade diante de Deus.


Outro texto destacado e mal interpretado pelos teólogos da prosperidade é Marcos 10.29 e passagens paralelas em Mateus 19.29 e Lucas 18.29,30. O que Jesus disse é que ao abrir mão daquilo que o homem tem para segui-lo, vai ganhar uma nova família, vai pertencer à Igreja, ao corpo de Cristo, que representa 100 vezes mais mães, pais, filhos, casas etc. O contexto mostra em Marcos 10.21 que Jesus diz ao jovem rico que ele deveria vender todos os seus bens e dar aos pobres e, então seguir a Jesus. O problema não estava na sua riqueza, mas naquilo que estava depositada sua confiança, o que Jesus está ensinando é: dê o seu dinheiro, onde está depositada sua confiança aos pobres, confie inteiramente em mim e siga-me.


Marcos 11.22,23 tem sido usado para justificar o ato de falar com as enfermidades, e ainda o uso de verbos como “decretar” ou “determinar”, verbos adequados para estarem na boca de Deus Todo-Poderoso, mas nunca de criaturas finitas e falíveis. Jesus repreendeu a tempestade e o mar se acalmou (Mt 8.24), repreendeu a febre da sogra de Pedro e ela ficou curada (Lc 4.39). Porém, Jesus, mesmo assumindo a forma humana nunca deixou de ser Deus. A Bíblia relata alguns casos de pessoas comuns fazendo algo semelhante, como Moisés colocando o cajado sobre o mar e este se abriu (Nm 14.16,21), ou quando falou com a rocha e esta deu água (Nm 20.8), ou, ainda Pedro quando mandou um coxo se levantar e este ficou curado (At 3.6), entre outras coisas. Temos que entender que em todos os casos a ordem primeira não partiu de homens, mas de Deus. Marcos 11.22 diz “tende fé em Deus”, o que significa acreditar no que Deus falou. Foi Deus que falou a Moisés para falar com a rocha, que colocou no coração de Pedro a certeza de que o coxo seria curado, que falou que abriria o mar. Significa que se Deus falar as coisas acontecem como Ele falou, caso contrário tudo permanece como está. Marcos 11.22,23 não é uma carta branca para que o homem saia por ai “decretando” e “determinando”, mas um convite para acreditar e confiar em tudo o que Deus falar. Se Deus falar, vai acontecer. Quem decreta e determina é Deus, nós como servos fiéis só podemos proclamar o que Ele já decretou e determinou.


Na Teologia da Prosperidade o Diabo passou a ter seu lugar garantido no culto, onde é apresentado como causador do fracasso, da doença, da miséria, dos vícios, do adultério, brigas entre casais, enfim, tudo passou a ser culpa do diabo. Surgiram as “campanhas de sete dias”, “sessão de descarrego” e “de cura interior”. Alguns problemas específicos receberam o seu espírito maligno correspondente, que deve ser vencido. Texto como Mateus 16.19; 12.29 e Marcos 3.27 são usados para justificar a expressão “tá amarrado em nome de Jesus”, ou qualquer outro ritual para “amarrar” os demônios. Na Teologia da Prosperidade ou confissão positiva, quem dá poder para os demônios agirem ou não, são as pessoas e não Deus. Porém, Mateus 16.19 não diz que nós “amarramos” ou “ligamos” na terra e só então se “amarra” ou “liga” algo nos céus, mas exatamente o contrário. O tempo verbal grego, literalmente traduzido, é: “tudo que ligardes na terra terá sido ligado no céu”. Teria sido, implica que primeiro foi ligado no céu, para só então nós ligarmos na terra. Essa é a ordem, primeiro Deus toma a iniciativa, depois o homem segue o que Ele decretou. Quanto aos textos sobre “amarrar o valente” precisamos entender que Jesus havia sido acusado de expulsar demônios por ser o maioral deles, então, usou dessa analogia para explicar que não fazia sentido expulsá-los sendo um deles, assim como não fazia sentido invadir uma casa sem amarrar ou amordaçar o dono desta.


Os teólogos da prosperidade, afirmam que o poder de Jesus está limitado pela fé do ser homem. Usam Mateus 13.58 e Marcos 6.4,6 para dizer que quanto mais fé o homem tem, mais poder Jesus terá. Mas, o sentido dessas passagens fica claro quando entende-se para que serviam os milagres de Jesus. João 20.30,31 dá luz ao afirmar que os milagres de Jesus registrados no Evangelho, “foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” Portanto, sinais ou milagres são algo que Jesus fazia e ainda faz para que alguém veja e creia, ou seja, é como se fosse uma prova jurídica. Desta forma, Jesus não teve seus poderes limitados pela incredulidade do povo, simplesmente não quis fazer sinais ou milagres porque sabia que estes não serviriam para nada.


Usam os textos de I Samuel 24.6 e Salmo 105.15 para justificar uma classe especial de “ungidos”, aos quais não se pode tocar, confrontar, criticar ou questionar. A primeira passagem fala de Saul, ungido como rei, e a segunda fala dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó “Tocar”, significa em ambos os textos e contextos, “estender a mão contra” e “maltratar”, significa utilizar de violência física e não critica ou questionamento como argumentam. O seu líder não é infalível nem intocável, e quem crê dessa forma é o catolicismo em relação ao papa. Nenhum líder é infalível nem intocável, e quem crê dessa forma está invocando inerrância, semelhante ao dogma da 'infalibilidade papal'. Se um líder tentar usar de intimidação referindo-se às passagens citadas, é necessário desconfiar das intenções dele. Se alguém se referir a algum líder nestes termos, deverá ser confrontado com a reta interpretação das escrituras, pois está laborando em erro.

Pr Enylson Nahor Peno


Fontes:

CAPRILES, Alan. Onde está o erro na teologia da prosperidade. http://igrejabiblicacrista.org/onde-esta-o-errona-teologia-da-prosperidade.html. Acessado em 20/12/2017.

JOHN, Piper. Aos pregadores da prosperidade. https://arautodecristo777.files.wordpress.com/ Ebook encontrado em: http://voltemosaoevangelho.com/

JUNIOR, Linaldo Francisco Lima. Teologia da Prosperidade: das raízes à atualidade. https://www.webartigos.com/artigos/teologia-da-prosperidade-das-raizes-a-atualidade/130701/. Acessado em 15/11/2017

A Teologia da Prosperidade e uma “proposta” bíblica. http://monografias.brasilescola.uol.com.br/religiao/ateologia-prosperidade-uma-proposta-biblica.htm. Acessado em 15/11/2017.

ROSSI, Luiz Alexandre Solano. A Bíblia reinterpretada pela teologia da prosperidade. http://www.vidapastoral.com.br/artigos/temas-teologicos/a-biblia-reinterpretada-pela-teologia-da-prosperidade/ Acessado em 20/12/2017.

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