DEMOCRACIA BÍBLICA E ECLESIÁSTICA


Atualmente experimentamos uma tensão questionadora da eficiência do governo eclesiástico congregacional democrático, sob a suspeita de ser lento, burocrático e até, como afirmam alguns, “anti bíblico”. Há algum tempo li um artigo no qual se argumentava que a democracia era coisa de “demônios” pois as duas palavras, “demo-cracia” e “demo-nios”, possuíam o mesmo radical, “o demo”. Pois é, no mínimo faltou as aulas de grego.


Precisamos reconhecer que, de fato, uma igreja de governo congregacional democrático pode perder seu foco ministerial atendo-se a discussões sem fim, em torno de um assunto secundário, provocando inclusive animosidades nos relacionamentos entre seus membros. Muitos pastores e líderes dedicados sofrem a angústia de verem o desenvolvimento de uma boa proposta ministerial “emperrar” na assembleia da igreja, porque alguém que não tinha noção de coisa alguma fez diferença na votação. Não raro, pessoas desatentas, “sem opinião”, sem reflexão e maturidade, votam em nossas assembleias perguntando para a pessoa ao seu lado “pela opinião da maioria”. Em momentos como esses, frustrados, podemos nos se sentir tentados em rever nossa posição quanto ao modelo congregacional de governo eclesiástico optando por um modelo não participativo.


Esta tensão em nossos dias é nutrida não apenas por estas dificuldades operacionais mas antes pelo enfraquecimento de nossa teologia da Igreja. Hoje as bases sobre as quais muitos olham para a igreja são mais seculares do que neotestamentárias.


É evidente a crescente influência que uma certa “lógica de mercado” exerce sobre as igrejas que, mesmo possuindo uma outra fundamentação para sua natureza constitutiva, passam a adotar a linguagem, os métodos, as ferramentas do “mundo coorporativo secular”. A motivação da igreja e de sua liderança passa a ser os “resultados mensuráveis” e que “o negócio cresça”. Neste caso, um governo congregacional pode vir a ser um grande entrave. Falo aqui em termos gerais, sem com isso deixar de reconhecer que é possível o bom uso das ferramentas de gestão contemporâneas sem que se comprometa a natureza bíblica, teológica e espiritual da igreja. Em geral as igrejas neopentecostais são exemplos bem visíveis deste jeito de “ser igreja”. Com uma liderança autocrática, justificada por uma hermenêutica equivocada na compreensão das relações entre o Antigo e o Novo Testamento, deixam-nos a impressão que estão indo “bem nos negócios”.


Mesmo reconhecendo que não há uma sistematização da forma de governo no Novo Testamento concordo com o espírito da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira quando conceitua a igreja como “uma congregação local de pessoas regeneradas e batizadas após profissão de fé (...) são autônomas, têm governo democrático, praticam a disciplina e se regem em todas as questões espirituais e doutrinárias exclusivamente pelas palavras de Deus, sob a orientação do Espírito Santo.”¹


Encontro para esta posição fundamentos bíblicos, teológicos e práticos. Resumo alguns a seguir. Em primeiro lugar, precisamos nos lembrar sempre que ser igreja significa ser a comunidade do Reino, um modelo daquilo que a comunidade humana deve parecer quando submetida ao domínio divino, uma alternativa para a sociedade secular. Segundo, o governo congregacional afirma e valoriza o sacerdócio universal de todos os crentes. Ainda que reconheçamos os diferentes níveis de maturidade entre os membros admitimos que todos os membros na comunidade da fé indistintamente receberam o Espírito Santo quando creram (Joel 2.28-29; Atos 5.32;19.2; 1Coríntios 12.3), passando então a ser guiados desse modo pelo Senhor (Atos 13.2; 16.6-7; 1 Coríntios 14.29-31). Em terceiro, o governo congregacional leva a sério a Antropologia Bíblica, da Criação e da Queda, pois se nega a concentrar o poder nas mãos de uma ou poucas pessoas. Nas palavras de Reinhold Niebuhr, “A capacidade humana de agir com justiça torna a democracia possível, mas a sua capacidade para a injustiça torna a democracia necessária.”² Em quarto lugar, são inúmeras as referências bíblicas nas quais a “comunidade local” foi convocada e reunida para se pronunciar sobre diversos assuntos: na escolha de Matias (Atos 1.15), na escolha dos sete (Atos 6.1-7), nas deliberações do “primeiro concílio” da igreja (Atos 15.22) e também em um processo disciplinar (2Coríntios 2.6-7). Muito embora essas referências não sejam por si só conclusivas e nem normativas, exemplificam o fato de que a convocação da ekklesia não era um fenômeno estranho a experiência dos primeiros cristãos.


Como alguém que tem pressupostos congregacionais, frustra-me ver pessoas “sem noção” das coisas ou mesmo por mero capricho do orgulho pessoal, tomando decisões em nossas assembleias. Mas ainda acho que quando a congregação abdica ou lhe é cassado o direito de decidir, tenho receio de que estejamos fugindo do modelo, no mínimo, mais próximo da realidade frequente descrita no Novo Testamento.


Pro fim, acredito que boa parte dos problemas da igreja não está no modelo de governo eclesiástico mas do discipulado fraco. Por isso, assegurar o direito da igreja em ter a palavra final sobre aquelas decisões que afetam a vida da comunidade como um todo ainda é o caminho preferível, inclusive para a maturidade. Concluo como Wiston Chruchill que disse que “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras modalidades já experimentadas em todos os tempos.”³



CITAÇÕES

[1] Declaração Doutrinária da CBB. PDF em www.batistas.com/

[2] STOOT, John R.W. O Cristão em uma sociedade não cristã. Rio de Janeiro: Vinde, 1989,p.65.

[3] STOOT, John R.W. , ibid. p.65




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