AVALIAÇÃO DO MINISTÉRIO PASTORAL


Introdução “Quem os outros dizem que o Filho do Homem é?... E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16. 13,15). Há necessidade de avaliação em todas as áreas. O pastor não deve prescindir de uma avaliação periódica. Precisamos de autocrítica. Precisamos considerar o que, como, para quem fazemos. Isto é o ponto de partida para nos reciclar. Não podemos viver o tempo presente de clamor por qualidade na esfera empresarial ou eclesiástica sem uma reflexão de como temos nos portado. “Tem cuidado de ti e do teu ministério”, recomendou o apóstolo Paulo a Timóteo. Decorre do nosso tempo. Tempo de mudanças e mudanças no tempo. Velocidade de informação. No passado, os ministros eram avaliados pelo “visitömetro” – quantas pessoas ou famílias o pastor visitou, número de pessoas que aconselhou e daí surgia um “pastor aprovado”. Da mesma forma que na Sucessão Pastoral o peso maior (ainda) tem sido ouvir o obreiro-candidato ao pastorado, também, muitos pastores são abalizados pela capacidade de ser bom orador. (Imagine o déspota treinando seu melhor sermão e assumindo o honroso posto de pastor da igreja...) Somente a prática da visitação é critério válido? Somente a prédica é critério válido? Alguns obreiros usam o expediente da “avaliação anual”, quando consulta à igreja em assembléia ou informalmente se deve permanecer ou não no ministério da mesma. Ora, isto é reducionismo e simplismo desnecessários. O trabalho pastoral está além de um “fica” ou “sai”. Normalmente ouvimos de crises decorrentes sobre como o pastor deve lidar com os desfavoráveis ou o inverso: o que os contrários à permanência do pastor deve fazer na convivência da igreja... Normalmente o clima é contaminado com certa desconfiança e o relacionamento fica sob desestabilização. 1. O Tempo no Ministério O tempo do ministro exige muitos malabarismos: o relacionamento familiar, o preparo de mensagens – aulas, discursos, sermões, aconselhamento, o domínio de tecnologias (tempo diário para consultar e-mails); eventuais resolução de crises entre irmãos e famílias; a preparação de temas preventivos (combate a seitas, dilemas éticos etc); eventuais socorros que exigem mudanças na agenda; comparecimento a cerimônias – aniversários, formaturas, velórios, casamentos – administração e a participação na dinâmica familiar, entre tantas outras múltiplas atividades que, somadas ao contínuo cuidado com sua saúde espiritual (tempo para meditar, orar, exercitar disciplinas espirituais) tornam o ministério uma atividade sobre-humana, hercúlea até. Com plena certeza, raro são os membros da congregação que possuem uma noção razoável do exercício pastoral. Desconhecem que uma mensagem apresentada no culto consumiu tempo, pesquisa, muitas vezes agonia e oração até que o mensageiro a proferisse. A carga-horária a que muitos ministros se submetem não se compara a de nenhum outro executivo. E a desinformação da igreja quanto a isto deve ser vencida através de um diálogo franco do pastor e sua liderança e até mesmo por outro pastor convidado, para que a igreja reconheça que as mesmas crises são experimentadas. 2. O Tempo do Ministério É cada vez mais raro o ministério longevo. A pressão por resultados é enorme. Comparo-o aos dos treinadores de futebol. A “dança das cadeiras”, ou a rotatividade é de causar espécie. Ouvimos notícias sobre obreiros que ocuparam o ministério de três igrejas no período de 1 ano (!). Outros assumem um ministério até a próxima crise (!). Há igrejas que mantém a tradição de convidar ministros com “prazo de validade”. Em média, não duram até a próxima Copa do Mundo. A menos que nos deparemos com verdadeiros “trapalhões”, líderes que não obstante ampliar crises herdadas são criativos na produção de novas crises, não é possível avaliar legitimamente e com honestidade um curto ministério. Parece que os obreiros que iniciaram uma congregação – desde o ponto de pregação – até sua organização em igreja, possuem blindagem para uma permanência razoável. Ou casos excepcionais de ministros com reconhecido carisma e competência. É digno de registros de nossa alegria quando ouvimos celebrações marcando bodas de um pastor em seu ministério – ainda que sejam avis rara. 3. Considerações Necessárias para Uma Avaliação A necessidade de avaliação subjaz de contingências e variáveis que merecem registro: - É raro um pastor que serve há mais de dez anos numa igreja que (ainda) não tenha enfrentado questionamentos quanto ao seu tempo de pastorado, sobretudo de pessoas ou grupos que conspiram, questionam, sabotam e até mesmo monitoram a atuação do mesmo, inclusive exigindo demasiada força e energias do pastor em “sobreviver” no ministério da igreja local. - É comum o ministro enfrentar rebeliões no seio da congregação. Ainda que usando o já consagrado texto da imunidade do ungido (I Sm 26.9) não se dispõe nem por um momento avaliar-se ou ouvir um grupo dissidente sobre as razões do descontentamento, em que pese o direito ao diálogo que seus opositores possuem e da ilusória “divinização” a que muitos supõem possuir. - Outra vertente é a do obreiro que possui apego ao ministério. Fará de tudo para defender seu “emprego”, fazendo alianças ou coalizões, perseguindo e ameaçando opositores. Não tendo sensibilidade de perceber que o ministério da igreja local já não frutifica como outrora, impõe-se e ignora os sintomas da vontade de Deus para sua vida – mesmo que isto represente dolorosa fase na vida da congregação. Mesmo que isto custe o emagrecimento do rebanho, ainda assim uma postura irredutível, sem autocrítica. - A confusão estabelecida entre problemas do ministro e problemas do ministério. O mais recorrente é do indivíduo que exerce o ministério com problemas (seus) mal resolvidos. Falta de liderança na família; o fato de ter ignorado que a mulher que escolheu para ser sua ajudadora deveria ter dom para acompanhá-lo – é um fenômeno o número de vocacionados infelizes no ministério por não terem a companhia por de suas esposas; esposas que colecionam problemas no relacionamento com ovelhas e viram peso para o ministro; estilo de liderança centralizador, comandando a igreja com “mão de ferro”, personalista, impositivo, quando não arrogante e déspota. Isto são problemas do e no ministro, não são problemas do ministério. Muitos são impermeáveis a mentoria, aconselhamento de outros obreiros; recusam-se a tratamento, preferindo atribuir ao Diabo áreas de sua vida que são razoavelmente tratáveis. - Obreiros sabotam seminaristas ou outros vocacionados da congregação. Receiam perder espaço. Agem por ciúmes. Sentem-se ameaçados. Concentram todas as atividades em si mesmo, não dividem, não multiplicam. Congregações e igrejas são organizadas de forma precipitada para que o pastor “se livre” da (ou do) sombra que o incomoda. - Na contramão da história, há os que recusam-se à reciclagem. Isolados, não participam de congressos, cursos, convenções etc. Pararam no tempo. O reflexo é uma congregação que não avança pela falta de encorajamento de um líder que ficou para trás. Contentou-se com o pouco que conseguiu e recusa novo fôlego no ministério. Recusam-se a renovar a paixão pelo que faz. - Não poderia esquecer dos desorganizados. E há uma diversidade deles: o que serve tanto à denominação que relega a segundo plano o ministério da igreja local; os que são infiéis à esposa e filhos porque “casaram-se” com a igreja; preguiçosos, não socorrem, não visitam famílias; fazem mau uso do tempo, sendo um peso na vida da igreja, pois não correspondem minimamente às expectativas. Se pudéssemos resumir há uma desconstrução da figura do pastor. Isto é sintoma do pós-modernismo, de alguma forma, crise nas instituições e autoridades em todos os níveis. O pastor sofre do manto capitalista que nos cobre. O fazer –não fazer acima do ser-não ser, contrariando as Epístolas Pastorais, especialmente as recomendações do sênior Paulo ao calouro Timóteo. Poderíamos pensar em inúmeras variáveis. Ficaremos por aqui. Quais seriam os itens a serem avaliados no ministério pastoral? Surgem algumas questões: O que avaliar, como, quem deve avaliar, e a periodicidade. Algumas propostas: Relacionamento Familiar; Conteúdo Bíblico – Releväncia e Aplicação; Relacionamento com a Comunidade; Postura e Ética; Senso de Responsabilidade; Grau de Confiabilidade. 4. Uma Proposta de Avaliação a) A Fase de Informação - É fundamental que o ministro que toma a iniciativa de uma avaliação transmita de forma exaustiva e detalhada sua real intenção: a busca da excelência. Como não há uma cultura neste campo, cabe ao pastor informar e esclarecer de forma didática que os dados que terá, a devolutiva, serão usados para refletir melhor sobre seu trabalho e conduta. Portanto, a primeira parte é decisiva, a fase de informação. b) O Questionário – Os itens constantes num questionário devem minimamente versar sobre seis aspectos: 1. Relacionamento Familiar: Como você vê o relacionamento familiar do ministro; convivência harmoniosa; princípios de educação-instrução na família, na relação conjugal e na relação filial; 2. Conteúdo Bíblico: A exposição do ministro seja no púlpito, seja em ambiente de aula – relevância, atualidade e aplicação; 3. Relacionamento com a Comunidade: Apreciação da liderança, de forma equilibrada, afetiva e consciente de seus deveres; decisões que revelam um caráter amadurecido; certa capacidade de solucionar conflitos; 4. Postura e Ética: O ministro se porta com desejável cuidado em seus relacionamentos e procedimentos, na amizade, no convívio e no trato com o sexo oposto. 5. Senso de Responsabilidade: Dentro de suas possibilidades é cumpridor de seus deveres; 6. Grau de confiabilidade: Estima o ministro com considerado grau de confiança, pelas experiências e relacionamentos advindos do ministério. Cada um destes seis aspectos devem ser avaliados com as notas: Excelente – Ótimo (5), Bom (4), Regular (3), Ruim (2), Péssimo (1) e Sem Nota (0). c) Numa primeira fase, a liderança deve executar a avaliação; noutra etapa, uma mostra com dados percentuais: por faixa-etária ou um percentual do número de membros. d) A periodicidade deve ficar a critério do ministro. Não é desejável que um período delongado se estabeleça; também não é desejável que uma avaliação ocorra de modo que o ministro não tenha posto em prática um plano de ações para corrigir ou melhorar alguma área que foi apontada como sendo crítica na avaliação anterior. Conclusão Nós, ministros precisamos tomar iniciativas de avaliações em nossas comunidades. Não podemos ignorar que possuímos em nossos quadros pessoas cada vez mais informadas e capacitadas, que com boas críticas e sugestões muito contribuiriam na realização desta tarefa. Precisamos estimular esta “cultura”. Denunciamos que a avaliação simplista e reducionista (a que alguns pastores praticam em algum momento) do “fica ou sai” apenas tendem a deteriorar a instituição Ministério Pastoral, pois desconsidera aspectos importantes da vontade de Deus. A liderança exerce papel importante, a comunidade participa e o pastor pode ter em mãos dados fundamentais para (a) melhorar seu desempenho, (b) corrigir rumos e (c) adotar medidas que solidifiquem seu ministério e que resultem numa saudável qualificação do rebanho. Reconheçamos: É fato a subjetividade com que nos avaliam. É desejável o período de preparação para realizar tal empreitada, dada as peculiaridades da vocação. Também, se torna imprescindível que o Ministério não seja enquadrado sob notas, pois não é algo quantificável, mas, a expectativa da avaliação deve ser a de mostrar caminhos para áreas onde o ministro poderá melhorar. O assunto merece uma atenção maior em tempos globais. Urge a adoção das ISO 9000 nas igrejas e uma análise qualitativa do ministério pastoral. Deus nos ajude neste aprimoramento. Pastor Geraldo Farias de Souza, da IB Selecta – São Bernardo do Campo / SP www.lideralpinista.blogspot.com

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